Bem-estar e cuidado animal
Revisão aponta falhas na gestão de cães de terapia na Europa e EUA
Síntese publicada na Animals compara modelos de governança na Europa e nos Estados Unidos e encontra exigências centrais de bem-estar aplicadas de forma inconsistente.
· Redação ACE
Uma revisão narrativa de 2026 examinou como cães de terapia são selecionados, treinados, monitorados e aposentados em quadros europeus e norte-americanos. A conclusão: a governança é fragmentada, e a certificação do cão isolado não basta. Um estudo com condutores franceses e o white paper da IAHAIO ajudam a entender o que está em jogo para o bem-estar dos animais.
Cães participam de serviços assistidos por animais em hospitais, escolas, serviços sociais e comunidades. Os benefícios para as pessoas têm sido estudados há décadas; os sistemas para preparar e proteger os cães, muito menos. Uma revisão narrativa publicada em 16 de agosto de 2026 na revista Animals, em acesso aberto, sintetizou a literatura empírica, conceitual e de governança sobre a preparação de cães de terapia em contextos europeus selecionados e nos Estados Unidos.
Os autores organizaram a evidência em sete temas: governança, seleção de candidatos, treinamento, competência do condutor, monitoramento de bem-estar, gestão de saúde e risco zoonótico, e ciclo de carreira. O diagnóstico é de fragmentação. Orientações internacionais, certificações voluntárias, diretrizes nacionais e modelos legalmente estabelecidos diferem em escopo, exigibilidade, salvaguardas de bem-estar, requisitos para o condutor e reavaliação periódica.
Do cão aprovado à dupla avaliada em contexto
A proposta central da revisão é deixar de tratar a certificação como um teste que o cão passa ou não passa e passar a avaliar a dupla humano-cão dentro de contextos específicos de intervenção. Preparação baseada em recompensa e orientada ao consentimento do animal, monitoramento multimodal de bem-estar, reconhecimento de estresse pelo condutor, triagem veterinária, procedimentos de controle de infecção, regulação da carga de trabalho e planejamento da aposentadoria aparecem como requisitos centrais, mas padronizados de forma inconsistente. Os autores organizam essas exigências em um quadro de ciclo de vida em camadas, no qual a prontidão do cão é um processo dinâmico, dependente do contexto e centrado no bem-estar, da seleção ao fim da carreira.
Como agenda de pesquisa, o artigo prioriza a avaliação longitudinal do bem-estar, ferramentas validadas de seleção e de competência do condutor, comparação entre modelos de governança, indicadores de bem-estar positivo e relato transparente das variáveis de preparação. Por se tratar de revisão narrativa, sem protocolo sistemático de busca, suas conclusões descrevem um panorama e não estimam efeitos.
O que os condutores enxergam, e o que talvez não enxerguem
Um estudo publicado em 2022, também na Animals, entrevistou 111 condutores franceses por questionário on-line. Para eles, o bem-estar do cão de terapia é multidimensional: envolve saúde física e psicológica, equilíbrio entre trabalho e vida de cão, e as condições e interações das sessões. Três categorias de fatores de risco foram destacadas: o enquadramento espaço-temporal (planejamento e ambiente), as interações com os beneficiários e o próprio condutor. Os autores chamam atenção para um ponto delicado: as interações com beneficiários estão no centro da prática, mas há poucos estudos sobre elas como fonte de estresse para os cães. E, como as representações dos condutores podem carregar um viés positivo, o estudo defende que eles sejam treinados para identificar e manejar o estresse dos animais.
A referência de definições
A linguagem comum da área vem do white paper da International Association of Human-Animal Interaction Organizations (IAHAIO), publicado em 2014 e atualizado em 2018, que define as modalidades de intervenção assistida por animais e traz diretrizes de bem-estar para os animais envolvidos, com abordagem de Saúde Única e Bem-estar Único. A organização anunciou uma atualização em 2025 que substitui a expressão "intervenções" por "serviços assistidos por animais", a mesma adotada pela revisão de 2026. O documento é institucional, não um estudo, e cabe aqui como referência de vocabulário e de princípios.
Para o médico-veterinário, a contribuição mais concreta desse conjunto é a lista de tarefas que a revisão identifica como centrais e mal padronizadas: triagem de saúde, controle de infecção, limites de carga de trabalho e critérios de aposentadoria. São decisões que passam pelo consultório, e a evidência disponível diz que ainda dependem mais de cada programa do que de um padrão compartilhado.
Fontes
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1
Preparing Therapy Dogs for Animal-Assisted Services: Governance, Welfare-Centred Preparation, and a Lifecycle Research Agenda Across Selected European and United States Frameworks
Animals (MDPI) · Shajid Pyari M, Guo K, Kargas N · 16/08/2026 · DOI 10.3390/ani16162557
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2
Handlers' Representations on Therapy Dogs' Welfare
Animals (MDPI) · Mignot A, de Luca K, Servais V, Leboucher G · 24/02/2022 · DOI 10.3390/ani12050580
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3
IAHAIO White Paper: Definitions for Animal Assisted Intervention (Services) and Guidelines for Wellness of Animals Involved
International Association of Human-Animal Interaction Organizations (IAHAIO) · IAHAIO · 01/01/2018
