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Abdome é a região mais lesada em cães vítimas de acidentes

Dados do registro de trauma VetCOT mostram 91% de sobrevivência; lesões graves concentraram-se em órgãos internos, e o padrão anatômico variou com o porte. Inquérito em três países revela que uma parcela grande dos tutores viaja com o cão solto.

· Redação ACE

Cães atropelados ou feridos dentro de veículos têm as maiores taxas de mortalidade entre os casos que chegam a centros de trauma veterinário. Um estudo publicado em agosto de 2026 na Traffic Injury Prevention aplicou a Escala Veterinária Abreviada de Lesões (V-AIS) a casos do registro VetCOT para caracterizar gravidade e padrão anatômico, com o objetivo declarado de fornecer dados à indústria automotiva para sistemas de contenção validados.

A Escala Veterinária Abreviada de Lesões, V-AIS, foi criada para espelhar a escala AIS usada em humanos e preencher uma lacuna na análise retrospectiva do trauma em animais. Um estudo publicado em 28 de agosto de 2026 na revista Traffic Injury Prevention a aplicou a um grupo específico: cães feridos enquanto estavam dentro de um veículo. Segundo os autores, cães atropelados ou feridos dentro de veículos apresentam as maiores taxas de mortalidade entre os casos que chegam a centros de trauma veterinário, e entender mecanismos, padrões e gravidade das lesões é necessário para desenvolver sistemas de contenção cientificamente validados.

A fonte dos casos é o registro do Veterinary Committee on Trauma (VetCOT), programa apoiado pelo American College of Veterinary Emergency and Critical Care que, segundo sua página institucional, cria uma rede de hospitais colaborando para definir padrões elevados de cuidado e disseminar informação que melhore o manejo do paciente traumatizado. A consulta ao registro, de 2013 a 2024, identificou 268 cães feridos dentro de veículos. Para um subconjunto de 19 casos com prontuário disponível, todas as lesões foram codificadas com a V-AIS versão 1.0, anotando-se quando possível a posição do cão no veículo e as circunstâncias do acidente.

O que os números mostram

Entre os 268 cães, 91% sobreviveram até a alta hospitalar; a eutanásia respondeu por 83,3% das 24 mortes. A classe de peso não se associou à sobrevivência, mas os não sobreviventes chegaram com escore mediano de triagem de trauma animal (ATT) de 6,0, contra 1,0 entre os sobreviventes. No subconjunto de 19 casos, com 63 lesões codificadas, a distribuição anatômica variou de forma significativa com o porte: cães grandes, acima de 30 kg, sofreram sobretudo trauma apendicular (75,8%); cães médios, de 10,1 a 30 kg, trauma predominantemente de corpo central (61,5%); e cães pequenos, até 10 kg, uma mistura de trauma central (47,1%) e axial (47,1%). As lesões clinicamente significativas, com gravidade V-AIS igual ou superior a 3, ficaram restritas ao abdome, e todas as mortes ocorreram em cães com trauma de órgão interno.

Os autores tratam os achados como preliminares, dado o tamanho do subconjunto, mas consideram que a aplicação ampliada da V-AIS nos registros de trauma pode fornecer à indústria automotiva dados acionáveis e estratificados por gravidade para o desenvolvimento de sistemas de contenção baseados em evidências.

A escala do registro

O primeiro relatório do registro VetCOT, publicado em 2018 no Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, dá a dimensão da base de dados: 29 centros de trauma veterinário na América do Norte, Europa e Austrália contribuíram com 17.335 casos de cães e 3.425 de gatos em 42 meses, entre setembro de 2013 e março de 2017. O trauma penetrante foi a causa mais comum em cães (52,3%) e o contuso em gatos (56,7%); 43,8% dos cães passaram por cirurgia; a sobrevivência até a alta foi de 92,0% em cães e 82,5% em gatos. Os autores já apontavam a necessidade de analisar subconjuntos por tipo de lesão, e o estudo de 2026 é um exemplo desse desdobramento.

Quantos tutores contêm o cão no carro

A prevenção começa antes do acidente. Um inquérito on-line realizado em 2017 e 2018, publicado em 2019 na Preventive Veterinary Medicine, reuniu 706 respostas nos Estados Unidos, 692 no Reino Unido e 637 na Austrália. Pouco mais da metade dos tutores nos Estados Unidos (55%) disse conter o cão ao dirigir, contra 67% na Austrália e 72% no Reino Unido. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, o método mais comum era a caixa ou gaiola na área de carga; na Austrália, o peitoral com cinto preso à fivela do banco. País, porte do cão, idade do tutor, idade do cão e tipo de veículo foram fatores associados ao uso de contenção; tutores mais jovens dos Estados Unidos, com picape ou van, cão grande e viagens menos frequentes eram os que menos contiam o animal. Os autores ressalvam que se trata de amostra de conveniência.

Para a clínica, os três trabalhos sugerem duas rotinas: registrar de forma padronizada as lesões de cães ocupantes de veículos, para que os dados alimentem escalas e registros, e conversar com os tutores sobre contenção durante o transporte. Os artigos não avaliam produtos específicos de contenção, e esta síntese não recomenda nenhum.

Fontes

  1. 1
    Injury severity and anatomic patterns in canine occupants involved in vehicular crashes: application of the veterinary abbreviated injury scale

    Traffic Injury Prevention (Taylor & Francis) · Loftis K, Tucker C, Harroun-White H, Price J, Cookman K, Mann K · 28/08/2026 · DOI 10.1080/15389588.2026.2709024

  2. 2
    ACVECC-Veterinary Committee on Trauma Registry Report 2013-2017

    Journal of Veterinary Emergency and Critical Care (Wiley) · Hall KE, Boller M, Hoffberg J, McMichael M, Raffe MR, Sharp CR · 01/11/2018 · DOI 10.1111/vec.12766

  3. 3
    Restraint of dogs in vehicles in the US, UK and Australia

    Preventive Veterinary Medicine (Elsevier) · Hazel SJ, Kogan LR, Montrose VT, Hebart ML, Oxley JA · 01/10/2019 · DOI 10.1016/j.prevetmed.2019.104714

  4. 4
    Veterinary Committee on Trauma (VetCOT), página institucional

    American College of Veterinary Emergency and Critical Care (ACVECC) · VetCOT · 01/01/2026