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Biossegurança e Saúde Única

Veterinários focam conveniência ao escolher antiparasitários para gatos

Decisões de prescrição ainda negligenciam riscos ambientais e resistência.

· Redação ACE

Pesquisas indicam que fatores ambientais e resistência a medicamentos têm pouco peso nas decisões de veterinários sobre antiparasitários para gatos, apesar de evidências de impactos ambientais relevantes.

Veterinários que prescrevem antiparasitários para gatos domésticos ainda priorizam fatores como facilidade de administração e preferência dos tutores, relegando preocupações ambientais e riscos de resistência. Estudos recentes mostram que a persistência dessas substâncias no ambiente pode impactar insetos e aves, levantando questões para a abordagem da Saúde Única e a sustentabilidade da prática veterinária.

Fatores que influenciam a decisão do veterinário

Uma pesquisa conduzida por Hobbs e Duszak-Kowal com 16 veterinários do Reino Unido revelou que 81% dos profissionais consideram a facilidade de administração o principal critério na escolha do antiparasitário para gatos. A preferência do tutor também exerce influência significativa, sendo determinante para 44% dos entrevistados. Por outro lado, apenas 6% afirmaram que preocupações com contaminação ambiental ou resistência a medicamentos orientam suas decisões de prescrição. O uso profilático foi apontado como a estratégia mais eficaz por 63% dos participantes, enquanto somente 38% se mantêm atualizados sobre diretrizes de tratamento parasitário.

Persistência ambiental dos antiparasitários

Os antiparasitários da classe das isoxazolinas, como fluralaner e lotilaner, são amplamente utilizados em gatos e cães para o controle de pulgas e carrapatos. Segundo Berny e colegas, esses compostos apresentam meia-vida de eliminação fecal de 15,5 dias para fluralaner e 22 dias para lotilaner em gatos, podendo ser detectados nas fezes mesmo após o término do período recomendado de tratamento. A principal via de eliminação é biliar/fecal, o que favorece a liberação dessas substâncias no ambiente doméstico e natural. Simulações indicam que insetos que se alimentam de fezes podem ser altamente expostos a esses princípios ativos, especialmente ao fluralaner e ao lotilaner.

Riscos para a fauna e implicações para a Saúde Única

O impacto ambiental dos antiparasitários veterinários vai além dos invertebrados. Um estudo publicado por Tassin-de-Montaigu e colaboradores demonstrou que resíduos de parasiticidas aplicados em cães e gatos podem contaminar ninhos de aves, quando estas utilizam pelos desses animais para forrar seus ninhos. Foi observada correlação entre a concentração de pesticidas nos pelos encontrados nos ninhos e nos ovos não chocados ou filhotes mortos, sugerindo transferência direta das substâncias para os tecidos das aves. Isso reforça a necessidade de avaliar os riscos ambientais dos produtos veterinários não apenas para insetos, mas também para vertebrados silvestres.

Limites dos estudos e divergências na literatura

Apesar dos achados preocupantes, os estudos apresentam limitações importantes. A pesquisa sobre prescrição de antiparasitários foi realizada com uma amostra pequena de 16 veterinários e restrita a determinadas regiões do Reino Unido, o que pode limitar a generalização dos resultados. Já os estudos sobre persistência ambiental, embora demonstrem a presença prolongada dos compostos no ambiente, ainda carecem de dados quantitativos sobre o impacto real em populações de insetos e aves. Markowska-Buńka e colegas destacam que, apesar da eficácia e segurança das isoxazolinas para animais domésticos, a toxicidade para invertebrados não alvo e a persistência ambiental são preocupações emergentes que exigem avaliação integrada.

O que muda na prática veterinária

Os dados sugerem que a sustentabilidade ambiental ainda não é um fator determinante na escolha de antiparasitários para gatos, mesmo diante de evidências de contaminação ambiental e riscos à Saúde Única. A maioria dos veterinários prioriza a conveniência e as preferências dos tutores, enquanto aspectos como o potencial de resistência e o impacto ecológico permanecem em segundo plano. Especialistas defendem a necessidade de programas de stewardship e de atualização contínua dos profissionais, além do desenvolvimento de diretrizes que incorporem avaliações de risco ambiental na prescrição de medicamentos veterinários.

Em conclusão, embora os antiparasitários modernos sejam eficazes e seguros para os gatos, sua persistência no ambiente e o potencial impacto sobre a fauna não alvo apontam para a urgência de práticas veterinárias mais alinhadas com a Saúde Única. A conscientização e a integração de critérios ambientais nas decisões de prescrição podem contribuir para uma abordagem mais sustentável e responsável no controle de parasitas em animais de companhia.

Fontes

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    Prolonged fecal elimination of isoxazoline antiparasitic drugs in dogs and cats: is there a risk for nontarget species?

    Environmental toxicology and chemistry · Berny PJ, España B, Auré J, Cado J. · 01/01/2026 · DOI 10.1093/etojnl/vgaf285

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    Pharmacology and toxicology of veterinary isoxazolines: a review

    International journal for parasitology. Drugs and drug resistance · Markowska-Buńka P, Rasiński B, Ziółkowski H. · 01/01/2026 · DOI 10.1016/j.ijpddr.2026.100645

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    Transfer of veterinary parasiticides from the fur lining bird's nest to eggs and chicks

    Environmental science and pollution research international · Tassin-de-Montaigu C, Glauser G, Guinchard S, Goulson D. · 01/01/2026 · DOI 10.1007/s11356-026-37654-7

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