Desenvolvimento profissional
Veterinárias treinam produtoras para biossegurança no manejo de rebanhos
Estudo na Frontiers in Public Health descreve 38 profissionais capacitadas e 152 produtoras formadas; pesquisas na África do Sul e sobre a febre do Vale do Rift mostram por que o gênero importa na exposição a zoonoses.
· Redação ACE
Na Índia, as mulheres desempenham papéis centrais no manejo do rebanho, mas têm pouco acesso a treinamento em biossegurança porque as visitas de campo são feitas sobretudo por veterinários homens. Um programa publicado em agosto de 2026 contornou a barreira treinando veterinárias para treinar produtoras. Dois trabalhos anteriores mostram que a divisão de tarefas por gênero muda quem se expõe a quê.
As doenças zoonóticas continuam sendo uma ameaça relevante à saúde pública na Índia, onde a população densa e a economia agrícola tornam frequentes as interações entre pessoas e animais. Apesar das políticas que promovem abordagens de Saúde Única, persistem barreiras como baixa consciência e práticas inadequadas de biossegurança. Um estudo publicado em 26 de agosto de 2026 na Frontiers in Public Health parte de um diagnóstico específico: as mulheres produtoras têm papel crucial, mas pouco reconhecido, no manejo do rebanho, e têm acesso limitado a treinamento porque interagem pouco com os profissionais veterinários homens, que fazem a maior parte das visitas de campo. As profissionais veterinárias, por sua vez, conseguem se relacionar melhor com as produtoras, mas enfrentam barreiras para ocupar posições de campo e para acessar formação.
A solução desenhada foi um modelo de treinamento em cascata. Na primeira etapa, profissionais veterinárias foram treinadas em biossegurança, biosseguridade, Saúde Única e engajamento comunitário, e equipadas com ferramentas para treinar produtoras. Na segunda, essas profissionais conduziram sessões locais para as produtoras, com estudos de caso e jogos. O conhecimento adquirido foi medido por avaliações antes e depois e por grupos focais.
Os resultados das duas etapas
Foram treinadas 38 profissionais veterinárias; seus escores de conhecimento passaram de 10,6 (± 2,49) para 11,3 (± 2,47) nas mesmas questões. Os grupos focais mostraram que elas compreendiam o conhecimento e os problemas das produtoras, e produziram três temas sobre a capacitação dessas mulheres: lacunas de conhecimento e práticas de alto risco, barreiras estruturais e socioculturais, e caminhos para engajamento comunitário e transferência de conhecimento. Das 152 produtoras treinadas, 79,9% conseguiram identificar sinais clínicos de doença animal e 85,9% reconheceram práticas integradas de prevenção; ainda assim, lacunas na consciência sobre zoonoses e nas práticas de saneamento ficaram evidentes. Os autores concluem que engajar mulheres profissionais como praticantes e formadoras pode avançar a biossegurança e a detecção de doenças em nível comunitário, e defendem que abordagens centradas nas mulheres sejam incorporadas às estratégias nacionais de Saúde Única.
Por que o gênero muda a exposição
A lógica do programa tem base em estudos anteriores. Em 2020, um trabalho na EcoHealth descreveu, na comunidade rural de Mnisi, na província de Mpumalanga, África do Sul, os papéis e responsabilidades dos moradores nas tarefas identificadas como pontos críticos de exposição a patógenos, desagregados por gênero. As tarefas tipicamente masculinas incluíam o manejo de gado e aves, a caça e o abate de fauna silvestre e o controle de roedores; as tipicamente femininas, o preparo de alimentos de origem animal, a limpeza e a manutenção doméstica e o cuidado de crianças e familiares doentes. Como as tarefas são específicas por gênero, os padrões de exposição e transmissão também podem ser, e os autores recomendaram análise desagregada por gênero para a mitigação de risco.
Um artigo de perspectiva publicado em 2025 na Research Directions: One Health usou a febre do Vale do Rift como caso: a literatura foca a exposição masculina por causa de papéis ocupacionais dominados por homens e negligencia as responsabilidades variadas das mulheres no cuidado do rebanho; os estudos frequentemente carecem de dados desagregados por sexo; e normas sociais limitam a autonomia das mulheres na posse de animais, nas decisões de vacinação e no acesso a cuidados de saúde. Programas que envolveram mulheres, citam os autores, levaram a mudanças de normas e a maior acesso a mercados e a cuidado veterinário para produtoras.
Para a formação veterinária, o conjunto sugere uma pergunta simples a incluir em qualquer programa de extensão: quem, na propriedade, executa a tarefa que se quer mudar, e quem está recebendo a orientação. Quando as duas respostas não coincidem, o treinamento pode estar chegando à pessoa errada.
Fontes
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1
Empowering women for health security in India: a One Health cascade training model for strengthening biosecurity through women veterinarians and farmers
Frontiers in Public Health · Tadvi R, Taaffe J, Tseng A, Mishra S, Pundir P, Patil S · 26/08/2026 · DOI 10.3389/fpubh.2026.1903744
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2
Gender Roles and One Health Risk Factors at the Human-Livestock-Wildlife Interface, Mpumalanga Province, South Africa
EcoHealth (Springer) · Coyle AH, Berrian AM, van Rooyen J, Bagnol B, Smith MH · 01/06/2020 · DOI 10.1007/s10393-020-01478-9
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3
Rift Valley fever and invisible women
Research Directions: One Health (Cambridge University Press) · O'Neill L, Gubbins S, Reynolds C, Giorgakoudi K, Limon G · 04/06/2025 · DOI 10.1017/one.2025.10005
