Desenvolvimento profissional
Estudos revelam fatores de risco para saúde mental de veterinários
Estudos nos Estados Unidos, na Austrália, no Brasil e na Itália apontam fatores modificáveis: conflitos éticos sem preparo, falta de formação sobre luto, carga sem pausas e pouca autonomia. Nove em dez veterinários brasileiros não aprenderam a lidar com a morte na graduação.
· Redação ACE
A profissão veterinária convive com atrito, adoecimento mental e taxas de suicídio descritas como alarmantes. Quatro estudos publicados entre 2023 e 2024 medem componentes distintos do problema: o sofrimento moral diante de conflitos éticos, os fatores organizacionais do local de trabalho, o impacto emocional da morte de pacientes e os preditores de ideação suicida. Juntos, apontam para intervenções que não dependem só da resiliência individual.
A escassez de veterinários em vários países tem, entre suas causas, o abandono da profissão, e a pesquisa tem indicado níveis elevados de adoecimento mental e taxas de suicídio descritas como alarmantes entre praticantes. Quatro inquéritos publicados entre 2023 e 2024, em quatro países, medem partes diferentes desse quadro e convergem em um ponto: há fatores modificáveis, e nem todos estão dentro da pessoa.
Sofrimento moral e burnout
O sofrimento moral, a angústia de saber o que seria certo fazer e não poder fazê-lo, foi medido em 1.919 veterinários membros do Veterinary Information Network, em estudo publicado em 2023 no Journal of the American Veterinary Medical Association. Gênero e idade foram preditores significativos: veterinárias mais jovens relataram níveis mais altos que veterinários mais velhos. Controlando idade e gênero, tanto para associados quanto para proprietários de clínicas, níveis mais altos de sofrimento moral previram menor realização profissional e maior exaustão no trabalho, desengajamento interpessoal e burnout. Os autores consideram imperativo que a área ofereça treinamento para reconhecer e navegar conflitos éticos.
O peso do ambiente de trabalho
Um estudo publicado em 2023 no Australian Veterinary Journal perguntou se o foco deve ser o indivíduo ou a organização. Com 73 veterinários australianos, avaliou o impacto de onze fatores modificáveis do local de trabalho sobre saúde mental, apreço pelo trabalho e intenção de sair. Fatores desfavoráveis correlacionaram-se a depressão, estresse, menor apreço pelo trabalho e maior probabilidade de deixar tanto o cargo quanto a profissão, e a associação se manteve após controlar a resiliência individual. Duas categorias se destacaram por associação com melhores resultados psicológicos: pausas na carga de trabalho e controle ou autonomia de decisão. Para os autores, a resiliência é área de intervenção, mas os fatores do ambiente são potencialmente mais fáceis de modificar. O tamanho da amostra é uma limitação evidente.
A morte do paciente, no Brasil
Diferentemente do médico, o veterinário pode acompanhar o paciente da concepção ao fim da vida, e a proximidade torna a equipe mais exposta aos maus desfechos. Um estudo publicado em dezembro de 2023 na Veterinary Sciences avaliou o impacto emocional da morte de pacientes em 549 veterinários brasileiros, 78,3% mulheres, por questionário de 20 itens. As mulheres relataram ser mais afetadas do que os homens tanto pela morte do animal quanto pela conversa com o tutor sobre a morte. O impacto foi fortemente influenciado pelo número de animais eutanasiados e variou com a idade: veterinários acima de 50 anos foram menos afetados que os de 31 a 40. O dado mais direto para o ensino: 91,0% dos respondentes não receberam formação para lidar com o luto durante a graduação, e os que receberam relataram ser menos afetados. Os autores concluem que essa formação, voltada a preparar futuros veterinários para a morte e para sua comunicação, é ausente e necessária.
Preditores de ideação suicida
O estudo mais amplo, publicado em 2024 na Scientific Reports, aplicou a 1.556 veterinários italianos de 24 a 74 anos medidas de exposição à eutanásia de animais, uso de substâncias, funcionamento reflexivo (a capacidade de compreender o próprio comportamento e o dos outros em termos de estados mentais) e ideação suicida. A modelagem de equações estruturais mostrou que falhas no funcionamento reflexivo e o uso de substâncias estavam associados à ideação suicida. A recomendação é de programas de prevenção que melhorem o funcionamento reflexivo e reduzam o uso de substâncias.
Lidos em conjunto, os quatro trabalhos descrevem alvos concretos para escolas, empregadores e conselhos: formação em ética aplicada e em comunicação da morte, organização do trabalho com pausas e autonomia, e programas de prevenção com foco em funcionamento reflexivo e uso de substâncias. Se você ou alguém próximo está em sofrimento, procure ajuda: no Brasil, o CVV atende pelo 188, 24 horas, e em outros países há serviços equivalentes.
Fontes
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1
Veterinarians and moral distress
Journal of the American Veterinary Medical Association (AVMA) · Kogan LR, Rishniw M · 07/02/2023 · DOI 10.2460/javma.22.12.0598
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2
Mental health in the veterinary profession: an individual or organisational focus?
Australian Veterinary Journal (Wiley) · Hilton KR, Burke KJ, Signal T · 01/01/2023 · DOI 10.1111/avj.13215
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3
The Emotional Impact of Patient Loss on Brazilian Veterinarians
Veterinary Sciences (MDPI) · Moreira Bergamini S, Uccheddu S, Riggio G, de Jesus Vilela MR, Mariti C · 19/12/2023 · DOI 10.3390/vetsci11010003
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4
Predictors of suicidal ideation in Italian veterinarians
Scientific Reports (Nature Portfolio) · Varallo G, Zagaria A, Baldini V, Schianchi A, Brscic M, Panero M · 30/07/2024 · DOI 10.1038/s41598-024-68330-w
