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Prática baseada em evidências

Testes rápidos orientam uso seletivo de antibióticos na mastite clínica

Avaliação de dois kits de cultura feitos na clínica veterinária confirma a distinção entre gram-positivos e gram-negativos, mas expõe limites para identificar o patógeno.

· Redação ACE

Um estudo publicado em 2026 no JDS Communications avaliou os testes MicroMast e VetoRapid como apoio ao tratamento seletivo da mastite clínica não grave em vacas leiteiras. Ambos separaram bem gram-positivos de gram-negativos; a identificação do patógeno específico ficou aquém. O resultado dialoga com uma revisão de 2023 e com um estudo australiano que apontou contaminação frequente das amostras.

A mastite clínica continua sendo a principal razão para o uso de antimicrobianos em fazendas leiteiras. Uma parte dos casos, porém, não se beneficia do antibiótico: infecções por bactérias gram-negativas costumam se resolver sozinhas e amostras sem crescimento bacteriano não têm o que tratar. Separar rapidamente esses casos dos demais é a base do chamado tratamento seletivo, e é aí que entram os testes de cultura rápida feitos na fazenda ou na própria clínica veterinária.

Um estudo publicado em junho de 2026 no JDS Communications, periódico da American Dairy Science Association, avaliou dois desses kits, MicroMast e VetoRapid, no contexto de um ensaio clínico conduzido na Bélgica. Os testes foram realizados e lidos na clínica veterinária, e os resultados foram comparados com a bacteriologia laboratorial convencional, adotada como padrão de referência. Os autores calcularam sensibilidade, especificidade, valores preditivos, acurácia e concordância (kappa de Cohen) para duas tarefas: distinguir gram-positivos de gram-negativos e identificar o patógeno.

O que os dois kits acertaram e o que ficaram devendo

Na primeira tarefa, ambos os testes separaram de forma confiável as bactérias gram-positivas das gram-negativas, com desempenho superior do VetoRapid. Segundo os autores, isso sustenta o uso dos kits na decisão de tratar ou não um caso não grave de mastite clínica. Na segunda tarefa, a identificação do patógeno específico, a capacidade dos testes foi limitada, o que restringe seu uso para decisões mais amplas de manejo da saúde do úbere, como a escolha de estratégias contra patógenos contagiosos.

O resumo disponível não traz os valores numéricos de sensibilidade e especificidade; a leitura do artigo completo, em acesso aberto, é necessária para avaliar a magnitude dessas medidas antes de qualquer transposição para outra realidade produtiva. O estudo também foi conduzido em um único país, dentro de um ensaio clínico, o que limita a generalização.

O que a literatura recente já apontava

Uma revisão convidada publicada em 2023 no Journal of Dairy Science organizou as evidências sobre tratamento seletivo. Segundo os autores, os avanços da última década permitiram excluir do tratamento antimicrobiano os casos não graves com alta probabilidade de cura espontânea (sem causa bacteriana ou gram-negativos, excluídas as infecções por Klebsiella) e os casos crônicos com baixa taxa de cura bacteriológica. A revisão conclui que a identificação relativamente rápida do agente causal é o fator mais importante do protocolo e que muitos estudos não encontraram consequências negativas para a saúde do úbere após a adoção do tratamento seletivo com testes na fazenda. A redução do uso de antimicrobianos, por sua vez, dependeu da distribuição de patógenos em cada rebanho e das características do protocolo.

Um estudo observacional australiano de 2024, também no Journal of Dairy Science, acrescenta uma nota de cautela sobre a etapa de coleta. Em 641 amostras de leite colhidas por funcionários de 30 fazendas, 23% estavam contaminadas, e cinco testes de ponto de atendimento avaliados mostraram sensibilidade limitada para identificar os patógenos de interesse após 24 horas de incubação. Os perfis de patógenos também variaram entre rebanhos confinados, onde predominaram amostras sem crescimento e Klebsiella spp., e rebanhos a pasto, onde Streptococcus uberis foi o achado mais comum.

Como ler esses resultados na prática

Os três trabalhos convergem em um ponto: a utilidade do teste rápido está em responder a uma pergunta simples, gram-positivo ou gram-negativo, e não em substituir a bacteriologia completa. Também convergem na importância da qualidade da amostra e do registro de contagem de células somáticas e do histórico da vaca, elementos que a revisão de 2023 incorpora ao protocolo de decisão. A escolha de um kit e a definição do que fazer com cada resultado dependem do perfil de patógenos do rebanho, da capacidade de executar o teste corretamente e da supervisão do médico-veterinário responsável.

Para quem atua em bovinocultura de leite, a mensagem do estudo belga é menos uma recomendação e mais uma delimitação: os kits avaliados servem à triagem gram-positivo/gram-negativo dentro de um protocolo de tratamento seletivo, mas não sustentam, sozinhos, decisões que exigem saber qual é o patógeno. Antes de adotar qualquer protocolo, cabe ler os artigos completos, conferir o desempenho em condições semelhantes às do rebanho e discutir a implementação com o veterinário do rebanho.

Fontes

  1. 1
    Evaluation of 2 culture-based rapid tests used by veterinary practices as a tool for selective treatment of clinical mastitis

    JDS Communications (American Dairy Science Association) · Creytens L, Piepers S, De Vliegher S · 11/06/2026 · DOI 10.3168/jdsc.2026-1011

  2. 2
    Invited review: Selective treatment of clinical mastitis in dairy cattle

    Journal of Dairy Science · de Jong E, McCubbin KD, Speksnijder D, Dufour S, Middleton JR, Ruegg PL · 01/04/2023 · DOI 10.3168/jds.2022-22826

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