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Prática baseada em evidências

Escala brasileira e vídeos auxiliam no diagnóstico de dor aguda em gatos

ISFM e AAHA convergem em analgesia preventiva e multimodal; a escala UNESP-Botucatu, desenvolvida no Brasil, teve forma curta validada em condições clínicas e cirúrgicas; 24 vídeos mostram os comportamentos de dor descritos no etograma.

· Redação ACE

A dor é historicamente pouco reconhecida em gatos, cujos sinais são sutis. Duas diretrizes de 2022 organizam a avaliação e o manejo da dor aguda, um estudo de 2021 valida a escala multidimensional UNESP-Botucatu e sua forma curta, e uma compilação de 2024 disponibiliza vídeos de cada comportamento de dor para treinamento. Esta síntese descreve as ferramentas; a escolha de fármacos e doses cabe ao médico-veterinário.

Doença, trauma e cirurgia causam dor aguda, e o manejo eficaz dessa dor é condição para o bem-estar felino, entendido como saúde física e bem-estar mental. As diretrizes de consenso da International Society of Feline Medicine (ISFM), publicadas em 2022 no Journal of Feline Medicine and Surgery por um painel de especialistas, partem de um problema conhecido: a dor tem sido tradicionalmente pouco reconhecida em gatos, as ferramentas de avaliação não são amplamente implementadas, e os sinais nessa espécie podem ser sutis. As particularidades do metabolismo felino e as comorbidades podem levar ao subtratamento e ao desenvolvimento de sensibilização periférica e central.

Os princípios do documento são a analgesia preventiva e multimodal, incluindo anestesia local, com escolha de fármacos que considere o tipo, a gravidade e a duração da dor, as comorbidades e a prevenção de efeitos adversos. Cuidado de enfermagem, modificações do ambiente e manejo amigável ao gato são descritos como pilares do plano, assim como a abordagem em equipe, que inclui o cuidador. As diretrizes de manejo da dor da American Animal Hospital Association (AAHA), também de 2022, seguem a mesma direção para cães e gatos: guias e algoritmos para avaliação de dor aguda e crônica, instrumentos para tutores na dor crônica, ênfase do consenso no manejo proativo e preventivo em vez de reativo, e uma árvore de decisão em níveis que prioriza as modalidades mais eficazes.

Uma escala brasileira, e sua versão curta

Avaliar exige instrumento. A escala multidimensional UNESP-Botucatu de avaliação de dor em gatos (UFEPS) é válida e confiável para dor aguda, mas havia sido validada apenas para ovário-histerectomia e pode ser demorada. Um estudo publicado em 2021 na PeerJ, por pesquisadores da Unesp e colaboradores, avaliou a escala e sua nova forma curta (UFEPS-SF) em 10 gatos saudáveis de controle e 40 gatos que precisavam de manejo de dor por condições clínicas (20) ou cirúrgicas (20, sendo 12 ortopédicas e 8 de tecidos moles). Três avaliadores aplicaram, em tempo real, escalas analógica visual, numérica e descritiva simples, seguidas da UFEPS-SF, da UFEPS e da escala Glasgow CMPS-Feline, em ordem aleatória; o resgate analgésico nos casos cirúrgicos foi feito quando a UFEPS-SF marcava 4 ou mais.

A confiabilidade entre avaliadores foi moderada a boa para a UFEPS e a UFEPS-SF (intervalos de confiança dos coeficientes de correlação intraclasse de 0,73 a 0,86 e 0,63 a 0,82). A correlação entre as duas formas foi de 0,85, e a de cada uma com a Glasgow felina, forte (0,79 e 0,78), confirmando a validade de critério. Todas as escalas distinguiram gatos com dor dos controles e responderam à analgesia de resgate. Sensibilidade e especificidade foram moderadas: 83,25% e 72,00% para a UFEPS, 78,60% e 84,67% para a forma curta, 74,28% e 70,00% para a Glasgow. Os autores concluem que ambas as formas têm validade, responsividade, confiabilidade, sensibilidade e especificidade apropriadas para dor aguda em condições clínicas e cirúrgicas variadas.

Ver o comportamento antes de pontuá-lo

Escalas descrevem comportamentos, mas reconhecê-los requer treino. Um trabalho publicado em 2024 no Journal of Feline Medicine and Surgery usou uma base de 60 horas de gravações de gatos com diferentes tipos de dor aguda, médica, cirúrgica, traumática e orofacial, e diferentes graus, de nenhuma a grave, antes e depois de cirurgia ou analgesia, gravadas com aprovação ética e consentimento dos tutores. A seleção baseou-se em um etograma publicado de comportamentos de dor aguda; 24 vídeos, com duração média de 33 segundos, cada um mostrando um comportamento do etograma, foram publicados em um canal aberto de vídeos (youtube.com/@Steagalllaboratory) com descrição breve para o público. Os autores esperam que a compilação melhore o treinamento de profissionais e a compreensão do comportamento felino.

Reunidos, os quatro trabalhos formam um percurso de aprendizagem: ver os comportamentos, pontuá-los com uma escala validada, e tratar de forma preventiva e multimodal. Esta síntese não indica fármacos nem doses; as diretrizes completas e a avaliação de cada paciente cabem ao médico-veterinário, e a publicação deste texto está condicionada a revisão técnica em anestesiologia e analgesia veterinária.

Fontes

  1. 1
    2022 ISFM Consensus Guidelines on the Management of Acute Pain in Cats

    Journal of Feline Medicine and Surgery (International Society of Feline Medicine) · Steagall PV, Robertson S, Simon B, Warne LN, Shilo-Benjamini Y, Taylor S · 01/01/2022 · DOI 10.1177/1098612X211066268

  2. 2
    2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats

    Journal of the American Animal Hospital Association (AAHA) · Gruen ME, Lascelles BDX, Colleran E, Gottlieb A, Johnson J, Lotsikas P · 01/03/2022 · DOI 10.5326/JAAHA-MS-7292

  3. 3
    Clinical validation of the short and long UNESP-Botucatu scales for feline pain assessment

    PeerJ · Belli M, de Oliveira AR, de Lima MT, Trindade PHE, Steagall PV, Luna SPL · 12/04/2021 · DOI 10.7717/peerj.11225

  4. 4
    Video-based compilation of acute pain behaviours in cats

    Journal of Feline Medicine and Surgery (SAGE) · Marangoni S, Steagall PV · 01/09/2024 · DOI 10.1177/1098612X241260712