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Biossegurança e Saúde Única

Tetraciclinas são principais resíduos de antibióticos em fezes animais

Estudo no Journal of Hazardous Materials compila 1.334 registros de 28 países; suínos concentram os maiores níveis e a Europa, apesar de regras mais estritas, não difere da China. Estimativas de uso global e o papel do esterco completam o quadro.

· Redação ACE

Como os antibióticos são incompletamente metabolizados e excretados nas fezes, os resíduos fecais funcionam como indicador direto do uso e da liberação ambiental. Um estudo publicado em setembro de 2026 fez a primeira compilação global desses dados. Projeções de uso até 2030 e uma revisão sobre esterco e resistência no ambiente mostram por que a medição importa.

O uso de antibióticos na produção animal é um dos principais motores da resistência antimicrobiana, mas os padrões globais de uso e de liberação ambiental continuam mal caracterizados. Há um indicador pouco explorado: como os antibióticos são tipicamente metabolizados de forma incompleta e excretados nas fezes, os resíduos fecais refletem diretamente o que foi administrado e o que pode chegar ao ambiente. Um estudo publicado no Journal of Hazardous Materials, com data de edição de 15 de setembro de 2026, fez a primeira análise global desse indicador.

Os autores compilaram 1.334 registros de resíduos fecais de 84 antibióticos, provenientes de 88 estudos realizados em 28 países. A cobertura é muito desigual: 42% dos estudos foram feitos na China e 28% na Europa, enquanto vários grandes países produtores de carne não têm medições. As tetraciclinas apresentaram os maiores níveis fecais globais, com concentrações medianas de doxiciclina, clortetraciclina e oxitetraciclina de 382, 284 e 260 μg/kg de peso seco, respectivamente. Os suínos mostraram, em geral, os maiores resíduos totais.

Regras mais estritas, resíduos semelhantes

O achado que mais chama atenção é comparativo: apesar do uso veterinário relatado mais baixo e do controle regulatório mais estrito na Europa, os níveis de resíduos fecais europeus não diferiram significativamente dos observados na China. A análise temporal, por outro lado, revelou declínios significativos nos resíduos de várias tetraciclinas e sulfonamidas na China. Para os autores, os resultados expõem limitações importantes na cobertura atual de monitoramento e demonstram o potencial da vigilância por resíduos fecais para fortalecer a avaliação do uso veterinário, da carga ambiental e da pressão de seleção de resistência associada.

Quanto se usa, e para onde vai

A dimensão do uso foi estimada em 2023 na PLOS Global Public Health, com dados de 42 países combinados a modelos de regressão e projeções de rebanhos da FAO, calibrados com relatórios de intensidade de uso da Organização Mundial da Saúde Animal. O uso global de antimicrobianos em animais de produção foi estimado em 99.502 toneladas em 2020, com intervalo de confiança amplo (68.535 a 198.052), e projeção de aumento de 8,0%, para 107.472 toneladas, até 2030, mantidas as tendências. Os hotspots de uso estavam majoritariamente na Ásia (67%), com menos de 1% na África. Os autores pedem relatórios nacionais para avaliar o efeito das políticas.

O destino dos resíduos é tratado por uma revisão publicada em 2022 na Frontiers in Microbiology sobre o impacto do esterco no conjunto ambiental de resíduos e resistência. Os solos fertilizados com produtos derivados de esterco abrigam abundância maior e crônica de bactérias resistentes, múltiplos genes de resistência e um mobiloma enriquecido, às vezes também detectado nas culturas plantadas. Diferentes técnicas de processamento têm eficiências variadas: a compostagem parece reduzir ou eliminar a maioria dos resíduos, bactérias entéricas e genes de resistência de forma mais rápida e eficaz que o armazenamento em lagoa, mas há poucos dados de fazendas comerciais. A revisão recomenda interromper o uso veterinário de antibióticos de reserva humana e de antimicrobianos sem prescrição, e limitar o uso nas fazendas.

Juntos, os três trabalhos descrevem uma cadeia mensurável: toneladas administradas, resíduos excretados e genes que persistem no solo. A proposta do estudo de 2026 é simples de enunciar e difícil de executar: transformar a análise de fezes em ferramenta de vigilância rotineira, com cobertura geográfica que hoje não existe, inclusive em grandes produtores da América Latina.

Fontes

  1. 1
  2. 2
    Global trends in antimicrobial use in food-producing animals: 2020 to 2030

    PLOS Global Public Health · Mulchandani R, Wang Y, Gilbert M, Van Boeckel TP · 01/02/2023 · DOI 10.1371/journal.pgph.0001305

  3. 3
    Insights into the impact of manure on the environmental antibiotic residues and resistance pool

    Frontiers in Microbiology · Marutescu LG, Jaga M, Postolache C, Barbuceanu F, Milita NM, Romascu LM · 16/09/2022 · DOI 10.3389/fmicb.2022.965132