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Raiva humana no Brasil persiste com morcegos como principal fonte

Estudo na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical descreve a transição da raiva canina para a silvestre; o balanço de 50 anos do programa nacional e a vigilância genômica das variantes mostram o que foi conquistado e o que ficou.

· Redação ACE

O Brasil controlou a raiva transmitida por cães, mas o vírus continua circulando em morcegos, primatas e canídeos silvestres, e as pessoas continuam morrendo, sobretudo no Norte e no Nordeste. Três estudos brasileiros publicados entre 2023 e 2025 reúnem 25 anos de casos humanos, o balanço do Programa Nacional de Raiva e a análise filogenética das variantes em circulação.

A raiva é evitável, e ainda assim mata. Um estudo publicado em agosto de 2025 na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical analisou retrospectivamente os casos humanos notificados no Brasil entre 2001 e 2025, com dados de vigilância, literatura científica e relatórios de saúde pública, para descrever tendências nas fontes de transmissão, mudanças nas populações afetadas e desafios de prevenção e tratamento, em particular o acesso à profilaxia pós-exposição.

Foram 188 casos no período, média de 7,52 por ano, a maioria nas regiões Norte e Nordeste. Os morcegos foram a fonte mais comum de transmissão, seguidos de cães e primatas não humanos. A maior parte dos casos evoluiu para óbito. A profilaxia pós-exposição foi administrada na maioria deles, mas o tratamento pode ter sido tardio, incompleto ou iniciado após o início dos sintomas, o que limitou sua eficácia. Apenas dois pacientes sobreviveram, ambos com terapia intensiva e protocolos terapêuticos modificados. Os autores concluem que a transição da raiva mediada por cães para a mediada por morcegos exige vigilância reforçada e prevenção dirigida, e que garantir o acesso à profilaxia nas áreas de maior risco continua crítico.

Cinquenta anos de programa

O que permitiu controlar a raiva canina está descrito em um estudo publicado em 2023 na Pathogens. Em 1973, o Programa Nacional de Raiva foi criado por acordo entre os Ministérios da Saúde e da Agricultura, com ação integrada: profilaxia pós-exposição gratuita para pessoas em risco, campanhas de vacinação de cães, sistema conjunto de vigilância e conscientização. Os casos humanos transmitidos por cães caíram de 147 para zero, e os casos caninos de 4.500 para 7. O desafio passou a ser os casos transmitidos por animais silvestres, morcegos, primatas não humanos e canídeos. A maioria dos casos humanos atuais ocorre em municípios com bioma de floresta úmida tropical e subtropical e índice de Gini acima de 0,5. Na análise multivariada do período de 2010 a 2022, a temperatura associou-se a mais casos (razão de chances 1,739) e a cobertura de atenção primária foi identificada como fator protetor (0,947). Metade dos casos está no Nordeste, e os autores veem na associação com temperatura uma preocupação diante da mudança climática; recomendam manter a distribuição gratuita de profilaxia, sobretudo em áreas remotas da Amazônia, e ampliar a conscientização.

Que vírus circula, e onde

A vigilância laboratorial acompanha essa transição. Um estudo publicado em 2023 na Frontiers in Veterinary Science explica que, dos genótipos do gênero Lyssavirus, apenas o genótipo 1, o vírus clássico da raiva, circula no Brasil, subdividido em variantes antigênicas mantidas em ciclos independentes com hospedeiros e distribuições próprios: AgV1 e AgV2 em cães, AgV3 no morcego hematófago Desmodus rotundus, AgV4 e AgV6 nos morcegos não hematófagos Tadarida brasiliensis e Lasiurus cinereus, e variantes do sagui Callithrix jacchus e do cachorro-do-mato Cerdocyon thous. A análise filogenética de seis genomas da vigilância das regiões Norte e Nordeste formou 11 agrupamentos monofiléticos, cada um correspondendo a uma variante, e posicionou as amostras em AgV3, AgV6 e na variante Callithrix. Foi o primeiro relato de AgV6 no Norte do país. Os autores defendem mais vigilância genômica, com mais amostras e maior diversidade, para detectar mudanças de distribuição geográfica e eventos de transbordamento entre hospedeiros.

Para o médico-veterinário, os três trabalhos definem o papel atual da profissão na raiva brasileira: manter a cobertura vacinal canina que zerou a transmissão por cães, participar da vigilância de morcegos, herbívoros e primatas, e reconhecer que a exposição a morcego, mesmo sem mordida visível, é indicação de profilaxia imediata para a pessoa. As orientações de conduta pós-exposição são as do Ministério da Saúde, que esta síntese não substitui.

Fontes

  1. 1
    Two Decades of Human Rabies in Brazil: Epidemiological Trends, Emerging Risks and Treatment Challenges

    Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical · Catozo RG, Molina CML, Silva ALD, Aguiar JRDSB, Barbosa L, Guedes BLM · 01/08/2025 · DOI 10.1590/0037-8682-0110-2025

  2. 2
    Fifty Years of the National Rabies Control Program in Brazil under the One Health Perspective

    Pathogens (MDPI) · Schneider MC, Min KD, Romijn PC, De Morais NB, Montebello L, Manrique Rocha S · 11/11/2023 · DOI 10.3390/pathogens12111342

  3. 3
    Phylogenetic analysis of rabies surveillance samples from north and northeast Brazil

    Frontiers in Veterinary Science · da Cunha TCADS, da Silva FS, da Silva SP, Ribeiro Cruz AC, Paiva FADS, Casseb LMN · 29/09/2023 · DOI 10.3389/fvets.2023.1257558