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Vigilância falha e vetor resistente desafiam controle da leishmaniose

Em Mato Grosso, quase 19% dos cães examinados eram soropositivos, mas poucos municípios repetem os inquéritos; em quatro capitais e cidades endêmicas, sexo, vida ao ar livre e criação de galinhas mudaram o risco; uma população de flebotomíneos do Ceará resistiu ao inseticida das coleiras.

· Redação ACE

O cão é o principal reservatório doméstico de Leishmania infantum nas áreas urbanas brasileiras, e o Programa de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral depende de inquéritos caninos, controle vetorial e identificação de casos. Esta síntese reúne três estudos brasileiros publicados entre 2022 e 2024 que medem a execução da vigilância, os fatores de risco da infecção canina e a suscetibilidade do vetor às coleiras impregnadas.

A leishmaniose visceral é considerada doença negligenciada em escala global, e no Brasil sua expansão e urbanização levaram à criação do Programa de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral, que recomenda identificação de casos humanos e caninos, controle vetorial e prevenção. Três estudos brasileiros recentes, lidos em conjunto, mostram o que acontece quando essas recomendações encontram a rotina dos municípios.

Mato Grosso: muitos cães positivos, poucos inquéritos repetidos

Um estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária investigou a situação epidemiológica em municípios de Mato Grosso e a execução das atividades do programa entre 2019 e 2021. Os dados de casos humanos vieram do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), e os inquéritos entomológicos e caninos, da Secretaria de Estado de Saúde. No período, foram registrados 30 casos humanos, distribuídos em 16 municípios. Vetores foram identificados em metade dos municípios onde houve investigação entomológica, com predomínio de Lutzomyia longipalpis. Um total de 15.585 cães foi submetido a exame sorológico, e 18,91% eram soropositivos para Leishmania infantum. Apenas três municípios, porém, realizaram inquéritos caninos consecutivos. Os autores concluem que, embora a doença esteja amplamente distribuída no estado, poucos municípios executam as ações do programa, o que confirma o caráter negligenciado da doença.

Quem se infecta na cidade

Quais cães correm mais risco? Um estudo publicado em 2022 na Research in Veterinary Science reuniu dados de quatro cidades endêmicas de regiões diferentes, Fortaleza, Brasília, Palmas e Bauru, e usou testes parasitológicos, como cultura de lesão cutânea e análise histológica ou imuno-histoquímica da pele, para definir infecção, o que evita parte dos problemas dos inquéritos sorológicos. A positividade canina foi de 9,8% no conjunto, com grande variação: Bauru 18,7%, Brasília 8,4%, Fortaleza 7,9% e Palmas 4%. Na regressão logística ajustada por cidade, os machos tiveram o dobro da chance de infecção; cães que vivem fora de casa, 1,5 vez; e cães de domicílios que criam galinhas, 40% menos chance. Uma interação indicou que a associação protetora de ser de raça definida era mais forte entre cães com mais de sete anos. Os autores propõem usar esses fatores para identificar grupos de animais de maior risco e direcionar as intervenções de controle.

As coleiras e o vetor

As coleiras impregnadas com deltametrina a 4% são usadas nas áreas endêmicas para reduzir a transmissão a partir dos cães, mas a exposição contínua ao inseticida pode selecionar flebotomíneos resistentes. Um estudo publicado em novembro de 2024 na Parasites & Vectors expôs seis populações de campo de Lu. longipalpis, coletadas em áreas onde as coleiras foram usadas, a bioensaios de garrafa CDC com doses diagnósticas de 21,9 e 30 μg por garrafa e a experimentos de dose-resposta. Na dose de 21,9 μg, três populações eram suscetíveis; duas, do Ceará e de Minas Gerais, tiveram mortalidade de 94,9% e 95,7%, indicando possível resistência; e uma, do Ceará, foi classificada como resistente, com mortalidade de 87,1%. A intensidade da resistência foi baixa, com razões de resistência entre 2,27 e 0,54 na dose que mata metade dos insetos. Os autores concluem que a maioria das populações continua suscetível, mas que a população resistente do Ceará exige entender os mecanismos de resistência onde as coleiras são amplamente usadas.

Para o médico-veterinário em área endêmica, os três trabalhos oferecem três tarefas concretas: cobrar e registrar os inquéritos caninos do município, orientar tutores sobre os fatores de risco modificáveis, como manter o cão em ambiente protegido à noite, e acompanhar a eficácia das coleiras no território, já que a suscetibilidade do vetor não é uniforme no país. Esta síntese não substitui as diretrizes oficiais do Ministério da Saúde para diagnóstico e conduta.

Fontes

  1. 1
    Epidemiology of visceral leishmaniasis in municipalities of Mato Grosso and the performance of surveillance activities: an updated investigation

    Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária (Colégio Brasileiro de Parasitologia Veterinária) · Menegatti JA, Dias ÁFLR · 05/02/2024 · DOI 10.1590/S1984-29612024008

  2. 2
    Factors associated with Leishmania infantum infection in dogs from urban areas endemic for visceral leishmaniasis in Brazil

    Research in Veterinary Science (Elsevier) · Barbosa DS, Belo VS, Bezerra JMT, Figueiredo FB, Werneck GL · 20/12/2022 · DOI 10.1016/j.rvsc.2022.09.035

  3. 3
    Insecticide-impregnated dog collars for the control of visceral leishmaniasis: evaluation of the susceptibility of field Lutzomyia longipalpis populations to deltamethrin

    Parasites & Vectors (BMC) · de Sousa Félix de Lima M, Albuquerque e Silva R, de Almeida Rocha D, de Oliveira Mosqueira G, Gurgel-Gonçalves R, Obara MT · 15/11/2024 · DOI 10.1186/s13071-024-06474-4