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Biossegurança e Saúde Única

Estudo revela atraso no diagnóstico da doença da arranhadura do gato

Estudo no European Journal of Clinical Microbiology & Infectious Diseases pede estratégias de Saúde Única com controle de pulgas e acompanhamento veterinário; série pediátrica nos Estados Unidos e sorologia em gatos completam o quadro.

· Redação ACE

A doença da arranhadura do gato, causada principalmente por Bartonella henselae, tem espectro clínico amplo e manifestações atípicas que atrasam o diagnóstico. Um estudo retrospectivo de 2010 a 2025 no Porto, publicado em setembro de 2026, caracterizou 39 casos confirmados. Uma série com 304 crianças em Atlanta e um estudo sobre anticorpos em gatos ajudam a dimensionar a exposição.

A doença da arranhadura do gato é uma zoonose bem reconhecida, causada principalmente por Bartonella henselae, com espectro clínico amplo em que as manifestações atípicas podem atrasar o diagnóstico. Um estudo publicado em 8 de setembro de 2026 no European Journal of Clinical Microbiology & Infectious Diseases caracterizou o perfil clínico e epidemiológico da doença em um centro terciário português e avaliou o papel dos métodos moleculares e sorológicos como ferramentas complementares.

A coorte retrospectiva incluiu todos os pacientes com diagnóstico confirmado em laboratório na Unidade Local de Saúde de São João, no Porto, entre 2010 e 2025: 39 pessoas, com idade mediana de 15 anos, 53,8% delas pediátricas. A exposição a gatos foi relatada em 94,9% dos casos; a informação sobre infestação por pulgas e medidas preventivas nos animais de companhia não estava disponível nos registros. As apresentações sistêmicas ocorreram em 43,6% dos pacientes, e a grande maioria deles (94,1%) era imunocompetente.

Diagnóstico tardio e onde procurar a bactéria

Entre as amostras positivas por PCR que puderam ser sequenciadas, todas foram identificadas como B. henselae. A positividade do PCR foi muito maior em tecido de linfonodo (79,2%) do que no sangue (15,8%). O tempo mediano entre o início dos sintomas e o diagnóstico foi de 52,5 dias. No momento do diagnóstico, a sorologia era positiva para IgG em 76,0% dos pacientes e para IgM em 28,0%. A azitromicina em monoterapia foi o tratamento mais usado na doença típica (81,8%), enquanto a terapia combinada predominou nos casos sistêmicos (76,5%); a resolução clínica após um único curso de tratamento foi alcançada em 74,4% dos pacientes.

Os autores concluem que a doença se apresentou com frequência com envolvimento sistêmico, inclusive em imunocompetentes, e que o longo intervalo até o diagnóstico exige maior atenção clínica e melhor acesso a diagnóstico sorológico e molecular. Dada a alta frequência de exposição a gatos, propõem que estratégias de Saúde Única focadas em posse responsável, controle regular de pulgas e acompanhamento veterinário podem contribuir para reduzir a transmissão de Bartonella e a carga da doença.

A série pediátrica de Atlanta

Uma série publicada em 2022 na Open Forum Infectious Diseases reuniu 304 crianças diagnosticadas em um sistema hospitalar pediátrico terciário de Atlanta, Geórgia, entre 2010 e 2018. A maior proporção de diagnósticos ocorreu em agosto (13,5%) e setembro (15,5%). A idade mediana era de 8,1 anos; 92,4% das crianças com histórico documentado relataram exposição felina e 22% exposição canina. A linfadenopatia estava presente no exame físico da maioria (78,8%), mas apresentações atípicas sem linfadenopatia também foram comuns (20,7%); entre as crianças com imagem, 36,4% tinham esplenomegalia e 38,1% microabscessos esplênicos ou hepáticos. Dados veterinários do estado, revisados no mesmo estudo, mostraram soroprevalência de Bartonella de 8,2%, todos em cães.

O reservatório

Os gatos são o hospedeiro reservatório primário de B. henselae. Um estudo publicado em 2021 na Pathogens, com gatos de abrigo e de tutores, encontrou sororreatividade de 78% no soro por imunofluorescência, tanto no ensaio próprio quanto no comercial, e de 56,8% no fluido oral, com concordância apenas moderada entre os dois materiais (kappa 0,434); os autores concluíram que os anticorpos no fluido oral têm utilidade limitada para fins epidemiológicos ou diagnósticos.

Para o médico-veterinário, o ponto de contato com esses três trabalhos é o controle de pulgas: é o vetor entre gatos, e o estudo português observa que a informação sobre pulgas e prevenção nos animais dos pacientes simplesmente não constava dos registros médicos. Registrar e orientar esse dado na clínica veterinária é uma contribuição direta à vigilância de uma zoonose que, nos dados portugueses, levou quase dois meses para ser diagnosticada.

Fontes

  1. 1
    Clinical and epidemiological features of cat-scratch disease: a 16-year case retrospective study in a portuguese tertiary care centre

    European Journal of Clinical Microbiology & Infectious Diseases (Springer) · Pimenta A, de Sousa R, Tavares M, Rebelo S, Rocha R · 08/09/2026 · DOI 10.1007/s10096-026-05664-5

  2. 2
    Cat Scratch Disease: 9 Years of Experience at a Pediatric Center

    Open Forum Infectious Diseases (IDSA / Oxford University Press) · Amin O, Rostad CA, Gonzalez M, Rostad BS, Caltharp S, Quincer E · 20/08/2022 · DOI 10.1093/ofid/ofac426

  3. 3
    Bartonella henselae Antibodies in Serum and Oral Fluid Specimens from Cats

    Pathogens (MDPI) · Álvarez-Fernández A, Baxarias M, Prandi D, Breitschwerdt EB, Solano-Gallego L · 11/03/2021 · DOI 10.3390/pathogens10030329